terça-feira, 13 de outubro de 2009

Politizando a discussão...

Colocar a culpa no Lula - texto extraído do blog http://classemediawayoflife.blogspot.com/

"Culpa do Lula" é um expediente médio-classista que caracteriza qualquer coisa que possa dar errado no Brasil. É um híbrido de "transferência de responsabilidades" com "senso de posição social", dois conceitos interligados que compõem a filosofia de vida da Classe. Logo, para ingressar neste grupo especial da nossa sociedade, será necessário aprender a vincular o nome do ex-metalúrgico a qualquer evento ou constatação negativa que envolva o Brasil. Afinal, não basta ignorar o presidente. A revista, a tevê, o jornal e tudo aquilo em que você acredita urram para que você o odeie. Obedeça.

Um bom estudo de caso consiste na observação das reações e do posicionamento da Classe Média em relação à disputa para sede das Olimpíadas de 2016.Imagine voltar a alguns dias antes da escolha da cidade sede dos Jogos Olímpicos. Como bom membro da Classe Média, você primeiramente duvidaria, com todas as suas forças, da capacidade do governo brasileiro conseguir uma coisa dessas. Culpa do Lula. Um país tão bagunçado assim nunca será capaz de trazer pra cá um evento tão importante, de gente civilizada, uma coisa tão grandiosa e que nos traria tantos benefícios. Nosso presidente é despreparado e a comunidade internacional não o leva a sério. Culpa do Lula de novo.

Com o passar dos dias, a televisão (sua janela límpida e cristalina para a verdade sobre o mundo) lhe informaria que as chances são reais. E se o Rio vencer, não haverá culpa de nada para imputar no Lula. Isto seria capaz de botar em parafuso a cabeça do cidadão, tal qual um software mal programado com erro de sintaxe - um legítimo fatal error. Felizmente o cérebro humano possui mecanismos que impedem esse tipo de conflito: o médio-classista automaticamente começa a reconsiderar sua opinião sobre os Jogos Olímpicos, uma forma de desfazer esse nó nos neurônios.

O Rio está quase ganhando. A partir desse momento, o cidadão de Classe Média já conjectura se ser sede de Olimpíadas é realmente bom para o Brasil. Afinal, somos um país de terceira, violento, corrupto e pobre. Culpa do Lula. Tomara que o Rio perca. Aí, sai o anúncio: o Rio venceu. Agora, o médio-classista tem certeza de que isso é ruim. Além de ser um desrespeito com o Primeiro Mundo, um evento desse porte tem tudo para ser um fracasso em terras brasileiras. Vão desviar esse dinheiro, que deveria ser investido em educação e saúde (finja que você se importa, não interessa se você é usuário de educação e saúde privadas). E o dinheiro dos seus impostos vai pra mão dos políticos, que vão roubar quase tudo. Culpa do Lula (ignore que ele não será o Presidente em 2016).

Conclusão: para ser da Classe Média, a “Culpa do Lula” precisa ser uma entidade tão sagrada para você, que te faça torcer com ardor e sinceridade para que o Brasil perca essa ou qualquer disputa. Pois só assim você poderá pronunciar "culpa do Lula", em tom de palavras mágicas, sentando em seu sofá quentinho e macio, cercado pelas grades do condomínio, tomando seu café e vestido com seu roupão felpudo. Esta será a sua fórmula para dormir tranquilo depois do Fantástico.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Nudez é outra coisa...

Um trecho de texto de Frei Beto, que ontem, após um final de semana leve e divertido (como há muito tempo não havia), entre as linhas de um longo e chato relatório, me fez pensar na vida... na vida e em viver!

"(...) É isso, não consigo ver o que os outros enxergam, não consigo rir do que os outros acham graça, não consigo deixar de ser eu mesmo, desconfiado, taciturno, porque são muitas as minhas cismas. Por exemplo, coleciono fechaduras e fotos de rinocerontes. Fechaduras, é obvio, servem para fechar, porque o ser humano não suporta a transparência. Precisa sempre se cobrir: de pêlo, máscaras, teto, muro, porque a nudez é uma arte que exige talento. Ainda que um homem e uma mulher estejam sem roupas, trancados num quarto, entregues às infinitas possibilidades do jogo erótico, não significa que estejam nus. Estão despidos. Nudez é outra coisa. É enfiar a faca até o cabo, arrebatar a lua com as mãos, destampar todos os recônditos da alma, os mais obscuros e ínfimos. Se nem suportamos ficar nus diante de nós mesmos, quanto mais diante dos outros! Por isso as fechaduras deveriam estar de língua recolhida, mas quase sempre elas se projetam interditando-nos.Por que fotos de rinocerontes? Faz tempo sonhei que eu era um rinoceronte, daqueles enormes que pesam toneladas. Locomovia-me com muita dificuldade, o que exigia paciência de todos à minha volta. Ao atravessar uma rua, eu me encontrava a meio caminho quando o sinal abria, irritando os motoristas; no cinema, precisava ocupar meia fila de cadeiras; no restaurante, comia metade do bufê.Gosto das esferas elegíacas. Da arte que não exprime lamento, dos primitivistas que ponteiam suas telas com o talento que supera todas as formalidades acadêmicas. Sou por eflorescências. Quase toda semana irrompem em mim vulcânicas primaveras. São flores de fogo. Procuro fixá-las em retábulos e, no exercício de iluminuras, copiá-las em pergaminhos. Porque só flores e borboletas superam as obras-primas da arte universal. Mas não sou dado a caçar borboletas.Não me agradam as idéias ajaezadas. Prefiro-as despojadas, diretas, translúcidas. Há dias em que me recolho à biblioteca do mosteiro em que vivo e passo horas contemplando iluminuras de manuscritos antigos.Eis que me apareceu em sonhos um homem cujos sapatos tinham bicos finos e longos; na cintura, profusão de laços; as mangas eram tufadas como balões e os punhos de renda. Ele estava de pé num salão fechado por cortinas de cores brilhantes, pontilhadas de estrelas de ouro entre espaços vazios cheios de sóis. Em volta, capitéis e um pesado brasonário. E ele sabia que a ataraxia é uma propriedade das mais belas esculturas.Súbito, ele começou a dançar em movimento suaves. Não havia música, apenas uma orquestra invisível de rinocerantes imensos e diminutos, gordos e delgados, altos e baixos, pesados e lépidos. Todos traziam fechaduras em suas patas arredondadas e ao abri-las e fechá-las imprimiam o ritmo que conduzia o dançarino. Acordado do outro lado do sonho, fiquei a me perguntar se tamanha ilogicidade que preside as emanações do inconsciente não seria a verdadeira lógica que a razão tanto teme e repudia (...)"

Do livro "A arte de semar estrelas".

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Inesquecível

Já fui para alguns shows dele, mas nenhum foi como o de ontem. Inesquecível! Teatro lotado. Ele com sua guitarra "de trailer", apresentando-nos 12 músicas novas... que agoniavam todo mundo que ousava ficar sentado. De vez em quando dois ou três levantavam e se rendiam a uma deliciosa mistura de côco, com forró... quase um frevo! Uma beleza!

Em seguida, ele pega o velho e bom violão "vazado" e nos presenteia com aqueles grandes sucessos. Maravilhoso! Aí ninguém mais ficou sentado mesmo. Até o Amarelo dançou um xote comigo (Uhuuuuu)!

Falando no Amarelo... fiquei olhando para ele, com o maior desejo de, naquele momento, conseguir olhar pelos seus olhos, escutar pelos seus ouvidos. Certamente, ele estava vendo e ouvindo um monte de coisas que, com meu pouco conhecimento musical, eu não conseguia escutar. Me deslumbrei com o seu deslumbramento.

Na volta para casa, tentamos escolher o melhor momento, sem conseguir. Entre tantos, teve a hora que ele cantou "Pensar em você"... foi lindo! Tão lindo, que ele pediu para acenderem as luzes, para assim poder ver a platéia, que cantava emocionada. E eu, cá com meus botões, me perguntava o que era mais bonito: o que eu estava ouvindo ou o momento no qual o Amarelo, no Parque da Jaqueira, lá no comecinho... pegou o violão e cantou pra mim. Difícil de escolher! Dois momentos idescritivelmente emocionantes. E o segundo momento se tornou muito mais emocionante porque houve o primeiro... sem dúvida! No Teatro, após a platéia cantar, ele puxa: "Olha aqui, preste atenção, essa é a nossa canção...". Perfeito!!!

Mas vou terminar esse post com a letra de uma outra música, que, com certeza, ele cantou pra mim... ou por mim!!! Hahahaha!!!

Lá vai... com vocês... Deus me proteja!!!

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer

quarta-feira, 7 de outubro de 2009


Penso que está chegando a hora de colocar alguém no mundo, de cuidar de forma mais próxima, tentar ser melhor um pouquinho para ele/ela e, ao mesmo tempo, construir um mundo um pouquinho melhor também com ele/ela. Nunca senti tanta vontade. Nunca me emocionei tanto, ao ver um filhote de cachorrinho.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Imitação?

Lembro de já ter escrito ou ao menos pensado muito sobre isso. Costumo a ser muito sensitiva... energia ruim? Inveja? Sinto de longe. Tenho calafrio, arrepio... é impressionante!!! É como se houvesse uma força estranha, sugando tudo que há de bom e deixando um monte de coisa ruim. Lembrei de Pai Bob: “São os olhos... muitos olhos”. Aí escuto também a voz de Tiago Gato, dizendo que tenho delírio persecutório. É provável também. Mas, sem dúvida, algumas coisas procedem.

Uma certa vez coloquei uma definição no meu orkut. Era um texto de Clarice. Li no livro e copiei todinho. Do jeito que gosto de escrever: sem letras maiúsculas. De repente, tempos depois, encontro esse mesmo trecho no orkut de uma outra pessoa. O mesmo! E a prova que copiou e colou é que não tinha letra maiúscula nenhuma!!! Quando vi, senti algo estranho. Se tivesse um pouco mais de intimidade, havia questionado, mas não consegui fazer isso. Hoje em dia, tenho até medo de escrever certas coisas no orkut... porque até expressões que nunca vi ninguém usando, bem minhas e de Lucas, por exemplo, hoje, vejo pessoas próximas, que sei que visitam muito o nosso orkut, usando. É... talvez seja o preço de tanta exposição.

Sem contar com a forma de vestir. Gente que conheço se vestindo de uma forma bem característica e que com tempo vai incorporando coisas que eu claramente percebo que não faziam parte dela... faz parte da minha forma de me vestir. Digo isso porque nem sou muito de moda. Tenho o mesmo estilinho há um bom tempo... há uns anos.

Meu cunhado uma vez me disse que essas coisas não deviam me assustar. Disse que eu devia pensar que algumas pessoas acham massa algumas coisas e tentam fazer ou usar igual por isso. Olhando desse lado... realmente, é possível encarar como algo bom.

Eu também tenho minhas referências. Me inspiro e procuro aprender com a seriedade de Cintia, a simpatia de Fafa, a inteligência de Nara, a criticidade do meu irmão, o estilinho de Maricota... poderia falar em um monte de gente. Mas jamais poderia falar que procuro “ser como” essas pessoas. Talvez isso faça muita diferença na polaridade (positivo ou negativo) das energias enviadas. Eu não olho pra elas e digo: poxa, como fulana é assim. Eu digo: que massa que você é assim. E muitas vezes digo também: fulana, me ajuda, vai?!

Sinto que falta a algumas pessoas uma aceitação maior. Uma aceitação do que se é. Aprender a ser e me aceitar sendo talvez tenha sido o maior aprendizado que a leitura de Clarice me trouxe. Não falo da leitura virtual de Clarice... aquelas frase soltas, muitas vezes piegas... e que, muitas vezes também, não são dela (algumas eu posso até apostar que não são!). Falo de se envolver em sua obra e se perder no desafio de se encontrar.

No final de Água Viva ela diz algo do tipo: Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. É bem por aí...

Enfim, acho que já escrevi demais sobre isso. Que venham (ou fiquem!) apenas as boas energias!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Na beira do São Francisco




Momento de “desorientação” para a vida. Conversar e encontrar um caminho. Um? Alguns! Falamos sobre dores, planos, amores. Percepções do outro, sobre o outro. Esclarecimentos e possibilidades de mudanças. O gato com sua madura ingenuidade. Bene com seu ritmo docemente acelerado. Foi muito bom! E, na saída, ainda escutei uma voz que me disse que o Velho Chico estava levando tudo que havia de ruim e nos presenteando só com bons fluídos. Que venham os bons fluídos!

domingo, 27 de setembro de 2009

Aprendendo com as aprendizagens

Desistir do louco desejo de mudar o outro, de querer que o outro se torne exatamente o que você espera, parece ser um bom caminho para uma vida mais tranqüila. Passei longos oito anos identificando defeitos e sugerindo alternativas, que para mim eram claríssimas. Passei longos oito anos me frustrando, pois, por mais que houvesse mudanças, elas jamais eram suficientes.

Hoje, percebo que olhei muito para o outro, fui muito rígida com o outro e até esqueci de olhar para mim. Entre tantas coisas, criticava e me ofendia com o ciúme exagerado; me sentia desrespeitada. Porém, jamais pensei no que poderia fazer para lhe dar mais segurança. Jamais reconheci aquilo como algo que tinha a ver comigo: era do outro, um problema do outro e, portanto, cabia ao outro resolver.

Precisei de alguns dos oito anos para me convencer de que não conseguiria a mudança esperada, para colocar o meu limite e dizer: assim eu não quero! Hoje, percebo também como tudo não passava de exigências de uma menina ainda imatura e um tanto autoritária. Hoje, esforço-me para não repetir o erro.

Casei com um homem muitíssimo diferente de mim e acredito que só é possível ser feliz com ele porque não permiti que essa “Edna-autoritária” entrasse na corrida para moldá-lo. Foi/é difícil aceitar algumas coisas e não dá para dizer que aceito tudo. Vem sendo extremamente importante colocar o meu limite e aprender a negociar diante dele.

O mais interessante disso tudo é que, ao aceitá-lo como é e ao me manter como sou, no que é importante para mim, tanto eu quanto ele mudamos! Pois é... mudamos sim!!! Mas ele muda não porque eu lhe peço. Muda porque percebe algo em mim que lhe parece interessante e resolve experimentar. Exatamente o mesmo aconteceu e acontece comigo.

Hoje, vejo o quanto o admiro. Ele é dono de uma honestidade e de uma sensibilidade que eu nunca vi igual. A sensibilidade vem acompanhada de uma enorme disposição para me acolher, nos meus maiores defeitos e também nas minhas qualidades. Ele é também uma companhia maravilhosa, tanto que eu trocaria qualquer programação pela possibilidade de estar ao seu lado. Ele é divertido, leve, simples. Não precisa de muito para se sentir bem e para fazer eu me sentir assim. E ainda é capaz de me dar um prazer que jamais eu esperava sentir.

Alguém poderia pensar: é perfeito! Não é! Às vezes, é até muito difícil. Precisamos conversar muito e não apenas engolir algumas coisas. Sinto que, se reivindicasse a sua mudança, poderia até ganhar algumas coisas (embora duvide disso), mas tenho receio do que poderia perder. Prefiro fazer o esforço de significar seus “descuidos” como descuidos e não como maldade. Até porque diante de tudo que vivemos não dá para pensar diferente.

Hoje sinto esse amor mais forte, mais concreto, mais tranqüilo... o vejo como uma pessoa melhor e, ao seu lado, também me sinto melhor. Um dia desses disse para ele que não o amava incondicionalmente. O amava pelo que significava e pelo quanto me fazia bem. E deixarei de amá-lo, quando não for mais assim. Esse parece que foi o mais importante aprendizado para nós dois. Saber que o amor não é incondicional é cotidianamente construir esse amor, construir esse “para sempre”. Um “para sempre” que, se continuar assim, vai realmente durar muito!