segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um pouco de vida real

É! Eu gosto de vida real. Principalmente porque sempre senti de forma muito intensa a realidade. Nunca precisei ler um livro, mesmo gostando muito de fazer isso, para ter uma história engraçada ou triste para contar.

Sempre gostei de roteiros, porque me remetem a caminhos pelos quais posso/devo seguir. Biografias? Nem se fala! Não há nada melhor do que conhecer outras histórias de vida, com seus desdobramentos, para pensar na sua própria vida e descobrir os caminhos mais certeiros. Se bem que parece ser importante pegar caminhos errados, até quando já sabemos que são errados. Certo ou errado? Nesse momento, entendo certo e errado como o que traz ou não sofrimento. Penso que certa dose de sofrimento até pode ter efeito terapêutico, mas falo aqui do excesso. Do porre de sofrer.

Para além dos roteiros, ando muito encantada também com as pessoas que cruzam o meu caminho ou compõem os tantos outros roteiros, que em tantas direções configuram a peça da qual também me vejo como personagem. O que me encanta e, ao mesmo tempo, intriga/instiga são as contradições. Refiro-me às contradições que eu vejo como sendo delas e também àquelas que eu sinto no meu encontro com elas. Porque o meu sentimento também é por vezes contraditório e igualmente intenso, independente dos pólos.

Hoje, encontrei uma velha amiga, da qual não tinha notícias há anos. Ela falou tanto, tanto, tanto... me contou toda a sua vida em 10 minutos e eu fiquei deslumbrada, vendo imagens e verdadeiros filmes que passavam velozmente na minha cabeça, a cada história que ela contava. Foram só 15 minutos (o tempo de uma coca light, entre uma aula e outra), mas foi surpreendentemente intenso. Já no final, ela ousou perguntar como estava a minha vida. Olhei para o relógio e vi que tinha apenas cinco minutos para enquadrar toda a minha prolixidade. Metralhei cinco minutos de histórias que, para ela, eram sem sentido e desencontradas, mas que para mim se encontravam e se encontram em mim. Percebi a expressão das sobrancelhas e todo estranhamento em frases como: só você mesmo, Dinha!

Essa frase simples ficou o dia todo na minha cabeça e me fez pensar na singularidade de cada peça que encenamos e, ao mesmo tempo, na multiplicidade de cada um de nós. Lembrei das frases dela, que traziam aquela idéia de “eu sou assim”. Será mesmo que alguém é? Essencialmente se é? Desconfio disso. A cada dia desconfio mais dessa tal de essência. Poderia até fundamentar teoricamente tal desconfiança, com Hall ou Davis e Harré. Mas não falo da teoria. Falo de sentimento. E, realmente, não conheço ninguém que, de tão coerente que é, faça-me reconhecer a existência de uma essência.

Alguns dos meus leitores imaginários podem estar assustados sobre quão negativista são essas afirmações. Enganam-se! Se as possibilidades de estar e não ser causam angústia, por um lado, e desterritorializam, ao questionar as certezas e os nosso lugares no mundo, por outro lado, nos libertam. Afinal de contas, se não há essência que me aprisione, dizendo exatamente o que sou, posso me considerar livre para ser... livre para dar voz a tantas Ednas e, quando achar que elas já não devem falar, livre para calar tantas outras.

Deu vontade de fazer (mais) teatro, tomar cerveja... deu vontade de fazer um brinde à liberdade de ser. Liberdade? É! Talvez precisemos voltar a falar sobre isso...

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